Nos últimos anos, os incêndios florestais se intensificaram em diversos países da América do Sul, num contexto de aumento de eventos extremos associados às mudanças climáticas. Somente em 2024, foram detectados mais de 346.000 focos de incêndio no continente, enquanto na Patagônia argentina os incêndios ocorridos em 2026 devastaram mais de 60.000 hectares em áreas de Chubut, Rio Negro e Neuquén.
Diante desse cenário, a aliança entre a Fundação Alimentaris e a Iniciativa BASE, coordenada pela Fundação Avina, promove uma linha de trabalho voltada para compreender e dar visibilidade à relação entre as mudanças climáticas e os incêndios florestais na Patagônia argentina. Como parte desse processo, foi desenvolvida uma pesquisa que analisa como as condições climáticas na região mudaram e como essas mudanças estão aumentando o risco de incêndios florestais.
Os resultados mostram que a Patagônia passa por uma mudança persistente em seu regime climático desde aproximadamente 2006/2007. Essa mudança não se refere a uma flutuação temporária, mas mostra que as condições meteorológicas agora favorecem incêndios mais severos, recorrentes e difíceis de controlar, com aumento das temperaturas, redução das precipitações, ondas de calor mais frequentes e temporadas de incêndios mais extensas.
Nesse novo contexto climático, os incêndios deixaram de ser eventos excepcionais para se tornarem um risco recorrente que afeta comunidades, territórios e economias locais. No entanto, grande parte das estratégias de prevenção, preparação e resposta continua operando com base em premissas climáticas de décadas atrás. A isso se somam a circulação de desinformação, a proliferação de canais não oficiais e as dificuldades para coordenar mensagens confiáveis durante situações de emergência.
Nesse contexto, no dia 21 de maio foi realizado em Lago Puelo o workshop “Da informação à ação: comunicar incêndios em um novo cenário climático na Patagônia Norte”, um espaço de encontro e intercâmbio entre meios de comunicação, comunicadores de impacto, sociedade civil, academia e atores territoriais.
Fortalecer a forma como a informação é construída, circula e se conecta torna-se uma necessidade estratégica em um contexto em que o risco de incêndios aumentou estruturalmente. O workshop partiu do reconhecimento de que muitas das respostas, aprendizados e experiências diante dos incêndios já existem no território, e que a construção de vínculos entre ciência, comunicação e atores locais é hoje uma condição necessária para enfrentar cenários cada vez mais complexos.
O workshop contou ainda com a participação da agência de notícias InnContext, que facilitou espaços de reflexão sobre como construir relações mais colaborativas e sustentáveis entre a mídia e a sociedade civil, promovendo coberturas que permitam abordar os incêndios além da lógica exclusivamente reativa da emergência.
Da mesma forma, a Associação Civil AcercAR, composta por atores territoriais da Comarca Andina que trabalham diretamente em processos comunitários ligados a incêndios e emergências, acompanhou a construção coletiva de propostas voltadas para melhorar a circulação de informações úteis e confiáveis, fortalecer a articulação territorial e o estabelecimento de mecanismos concretos de coordenação comunitária.
Como parte dos acordos, será impulsionada uma comunidade de articulação por meio de canais temáticos do WhatsApp, voltada para fortalecer o intercâmbio organizado entre atores ligados à comunicação, prevenção, emergências e trabalho territorial na Comarca Andina. O espaço buscará facilitar a circulação de informações confiáveis, a verificação de conteúdos, o intercâmbio de fontes e a coordenação comunitária diante de situações críticas.
A partir deste primeiro encontro, o espaço buscará continuar crescendo por meio de novas articulações entre atores do território, fortalecendo vínculos e capacidades coletivas diante de cenários de incêndios cada vez mais complexos na Patagônia Norte.
Foto: © Marcos Huisman, 2026
